
domingo, 18 de outubro de 2009
De volta às postagens

sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Acessibilidade é civilização
Batentes por todos os lados. O chão? Irregular. Portas largas e barras de apoio em banheiros de restaurantes e lanchonetes? Raramente. E nos provadores das lojas? Nunca! E para entrar nos ônibus? Quase um milagre... E que tal as vagas de carro exclusivas para pessoas com deficiência? Sempre ocupadas por algum engraçadinho sem qualquer respeito ao próximo. E a questão da segurança das pessoas que transitam pelas cidades? Sempre precária. Definitivamente, a vida de pessoas com dificuldade de locomoção não é nada fácil, sobretudo quando a cidade e a população não estão prontas para elas.
Quando se pensa em cidadania e inclusão social, não é apenas a dimensão econômica que está em questão. Existem várias outras formas de violar a cidadania e de excluir pessoas do convívio social. A falta de acessibilidade é uma delas. Como sentimento de pertença a um determinado grupamento, que ocupa um determinado território, a cidadania pressupõe convívio, diálogo, respeito.
Se uma cidade não dá condições para que as pessoas com deficiência – permanente ou passageira – possam transitar por todos os espaços públicos e privados, esta mesma cidade nega a cidadania aos sujeitos.
É preciso lembrar que os problemas de acessibilidade compõem apenas uma dimensão das inúmeras dificuldades pelas quais passam pessoas com deficiência. Como se não fosse suficiente a exclusão espacial, ainda é preciso lidar com preconceitos de ordem estética e outros fundados na equivocada crença da inferioridade dessas pessoas.
No dia 21 de setembro é comemorado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Estamos, portanto, em plena Semana da Acessibilidade. Pelo Brasil afora ocorrem, todos os dias, diversas manifestações de grupos e associações de pessoas com deficiência, com o propósito de sensibilizar as comunidades sobre a questão. De fato, grandes centros urbanos e pequenas cidades do interior têm em comum a precariedade no quesito acessibilidade. Mas isso pode mudar. Tornar as cidades acessíveis e seguras para qualquer pessoa é essencial para toda nação que se diga civilizada.
Publicado na Gazeta de Alagoas em 24/09/2009 (http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=153340&ass=37&data=2009-09-24)sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Crítica literária - O relato de Nanna

Foi bom ver Humbertão encarar um desafio de nosso tempo logo em seu primeiro romance. Nossas tramas, como nossas vidas, seguem uma percepção não-linear do tempo. Não nos importa tanto, numa Wikipedia, no Google, uma sequência cronológica do que é descrito. Tudo, de qualquer tempo, parece imerso num eterno presente, podendo ser analisado sob o olhar de nossa época e comparado a qualquer outro fenômeno? Parece complicado? Humberto segue com sutileza logo nas primeiras páginas, de um enredo que se situa entre três tempos: o primeiro narrador, que toma o relato de Nanna que dá título ao livro, Nanna num passado recente e Nanna num passado distante como narradora e ao mesmo tempo como personagem. É impressionante a desenvoltura com que Humberto lida com linhas de tempo distintas. É sinal de estilo bem desenvolvido fazer algo complexo parecer simples. Nada da dor de cabeça que um episódio de Lost pode nos dar. Nada das dezenas de linhas de tempo do (maravilhoso) "Leite Derramado" de Chico Buarque. Os três períodos são bem ajustados logo no começo da trama para que o leitor acompanhe sem dificuldade a narrativa.
Humberto escreveu como um romance de formação, mas brincando com o formato. Os romances de formação não são algo tradicional em nossa literatura. São enredos em que as personagens estão em autoconhecimento, em amadurecimento, mas nesse caso Nanna rejeita boa parte das possibilidades de crescimento, contesta, age de modo distinto, contando com uma consciência exterior (não vou adiantar nada que comprometa o fim da história...) que ora é ignorada ora é respeitada ora é domesticada, mas que não simplesmente seja seguida.
Não direi sobre o que é a história pois o enredo impede sinopses. As sutilezas na narrativa exigem que seja lentamente descoberta. Uma crítica? Algo que não gostei? Não gostei de não encontrar maior repercussão. Na verdade, se Humberto tivesse publicado num estado cuja população tivesse maior hábito de leitura, contasse com livrarias, eventos literários não restritos a universitários, talvez já estivesse sendo procurado para adaptar para série de TV ou curta-metragem. Merece outras linguagens para as diversas texturas da história (texturas mesmo, é trama muito visual) poderem ser desvendadas.
domingo, 30 de agosto de 2009
Deus nos acuda!
Uma vez me disseram que em Alagoas as pessoas morrem de tudo, menos de monotonia. De imediato achei essa afirmação de um humor um tanto duvidoso, mas a cada dia sou convencida de que é mais ou menos assim que as coisas acontecem. Os sucessivos episódios de um cotidiano conturbado e marcado pelas mais variadas expressões da violência nos colocam em constante sobressalto, sobretudo pela gravidade dos fatos em si.
Duas situações absurdas marcaram as nossas últimas semanas. Primeiro a brutalidade sofrida pelo estudante Fábio Acioli, que, além de covardemente espancado, teve 80% do seu corpo queimado. Independentemente do que concluir a polícia sobre as motivações do delito – se sequestro relâmpago ou crime passional – não há como minimizar uma incivilidade dessa natureza. Se esse tipo de violência, que brota das vicissitudes da complexa vida em sociedade já nos causa tanto espanto, o que dizer quando a própria ação do Estado, através de sua polícia, nos revela os paradoxos da (in)segurança pública?
O que se passou na Parada Gay em Penedo não encontra qualquer justificativa razoável. Arrastar um ser humano pelos cabelos e jogá-lo de rosto no chão quando outras medidas de retenção estão ao alcance da autoridade policial é inconcebível, mesmo diante de provocações ou insultos. Uma ação desproporcional como essa nos faz questionar que tipo de profissional temos nas ruas a serviço da comunidade. Qual o preparo emocional e técnico de alguém que exaspera em suas ações, sobretudo quando minorias como os homossexuais estão implicados no processo?
Entendo que a essência do Estado de Direito consiste no controle das pulsões humanas para que a vida em sociedade se faça possível. Foi para isso que o Estado foi criado. Essa estrutura racionalmente articulada que tomou para si o direito de punir não pode se transfigurar em uma ameaça aos próprios cidadãos. Não podemos esquecer que, nestes últimos anos, a Polícia Militar de Alagoas passou a ser reconhecida nacionalmente pela formação humana, cidadã e pacífica de seu contingente. Tolerar qualquer afronta à dignidade humana significa negar essa conquista tão cara à nossa história recente.
Publicado na Gazeta de Alagoas em 30/08/2009 (http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=152019&ass=37&data=2009-08-29)
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Convite - 4º Ato Ufal em defesa da vida

Transcrevo abaixo o convite feito pela Profa. Ruth Vasconcelos (PROEST)para o 4º Ato do Programa Ufal em defesa da vida. Desta vez serão discutidos os efeitos da mídia e da violência no tecido social, com especial destaque à exposição excessiva da violência na mídia, aos jogos eletrônicos e à internet no processo de produção da violência e à responsabilidade de mídia na produção de uma cultura de paz. Imperdível!
A PROEST estará realizando no dia 26/08/2009, às 9:30hs, no antigo Auditório do CSAU, o 4º ATO do Programa UFAL EM DEFESA DA VIDA. Discutiremos, desta vez, a relação da Mídia com a Violência e seus efeitos no tecido social.
Divulguem, participem e colaborem para a construção de uma NOVA CULTURA POLÍTICA em nosso Estado.
Contamos com a sua presença e efetiva participação!
Atenciosamente,
Ruth Vasconcelos.
Coord. de Política Estudantil da PROEST/UFAL.
domingo, 16 de agosto de 2009
Refugo humano
Há um sociólogo polonês chamado Zygmunt Bauman que tem se dedicado ao estudo das vicissitudes da modernidade e da pós-modernidade. Em um livro intitulado Vidas desperdiçadas, Bauman problematiza a condição de seres humanos que, literalmente, sobram no mundo contemporâneo. Apresenta, então, o conceito de “refugo humano” para se referir a essas pessoas. Posso garantir que ninguém sai ileso da leitura desse texto.
Quando os meios de comunicação de massa noticiaram na semana passada a absurda morte de um menino de 11 anos no Lixão de Maceió, esmagado por um trator enquanto dormia numa montanha de lixo, depois de uma exaustiva noite de busca por algo que se aproveitasse em meio àquela imundície, imediatamente lembrei de Bauman. Sim, há seres humanos que são confundidos com lixo no mundo contemporâneo. São milhões e milhões de pessoas invisíveis que sobram porque estão à margem do mínimo necessário para que sejam reconhecidas como seres humanos. O caso dessa criança tem um duplo impacto sobre nós: real e simbólico. Real porque se trata de uma morte brutal, de uma vida ceifada pela violência da exclusão social. Simbólica porque aquela criança compunha a cena do lixão. Estava no lixo e, portanto, era refugo humano.
É claro que o atropelamento foi um acidente. Imagino o sobressalto do condutor do trator ao perceber a lamentável situação. No entanto, a presença daquele menino e de tantas outras crianças e adultos no lixão de Maceió não é algo acidental. Se estão ali é porque não têm lugar em outros espaços sociais. Encontram a sobrevivência naquilo que a sociedade mais despreza. Em cadeia nacional, a televisão mostra que no mesmo dia em que o menino é enterrado, outras crianças voltam a passar a noite catando restos nas montanhas do lixão. A rotina é retomada e o episódio do menino confundido com o lixo logo será esquecido. Sobre as montanhas de lixo continuam a transitar, invisíveis, montanhas de refugo humano.
Publicado na Gazeta de Alagoas em 15/08/2009 (http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=151327&ass=37&data=2009-08-15)
