domingo, 16 de agosto de 2009

Refugo humano

Há um sociólogo polonês chamado Zygmunt Bauman que tem se dedicado ao estudo das vicissitudes da modernidade e da pós-modernidade. Em um livro intitulado Vidas desperdiçadas, Bauman problematiza a condição de seres humanos que, literalmente, sobram no mundo contemporâneo. Apresenta, então, o conceito de “refugo humano” para se referir a essas pessoas. Posso garantir que ninguém sai ileso da leitura desse texto.

Quando os meios de comunicação de massa noticiaram na semana passada a absurda morte de um menino de 11 anos no Lixão de Maceió, esmagado por um trator enquanto dormia numa montanha de lixo, depois de uma exaustiva noite de busca por algo que se aproveitasse em meio àquela imundície, imediatamente lembrei de Bauman. Sim, há seres humanos que são confundidos com lixo no mundo contemporâneo. São milhões e milhões de pessoas invisíveis que sobram porque estão à margem do mínimo necessário para que sejam reconhecidas como seres humanos. O caso dessa criança tem um duplo impacto sobre nós: real e simbólico. Real porque se trata de uma morte brutal, de uma vida ceifada pela violência da exclusão social. Simbólica porque aquela criança compunha a cena do lixão. Estava no lixo e, portanto, era refugo humano.

É claro que o atropelamento foi um acidente. Imagino o sobressalto do condutor do trator ao perceber a lamentável situação. No entanto, a presença daquele menino e de tantas outras crianças e adultos no lixão de Maceió não é algo acidental. Se estão ali é porque não têm lugar em outros espaços sociais. Encontram a sobrevivência naquilo que a sociedade mais despreza. Em cadeia nacional, a televisão mostra que no mesmo dia em que o menino é enterrado, outras crianças voltam a passar a noite catando restos nas montanhas do lixão. A rotina é retomada e o episódio do menino confundido com o lixo logo será esquecido. Sobre as montanhas de lixo continuam a transitar, invisíveis, montanhas de refugo humano.

Publicado na Gazeta de Alagoas em 15/08/2009 (http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=151327&ass=37&data=2009-08-15)

7 comentários:

Madalena Sofia Galvão Viana disse...

Excelente texto!!! Adorei a frase: "Encontram a sobrevivência naquilo que a sociedade mais despreza."
Muito bom!!

Bjokas,

Sofia

Pablo Falcão disse...

Realmente, seu texto levou-me a refletir sobre o sentido do humano em nossos discursos diários e aqueles que possuem o poder de significação. Quando Zygmunt Bauman cunha a expressão "refugo humano" ele a deixa semanticamente em aberto, a espera das fixações pragmáticas dos possíveis sentidos do humano. Nietsche já nos advertia sobre o poder humano de significar, nesse caso, a própria humanidade. Como você bem escreveu, a vítima, sem o sentido do humano, não passou de mais uma camada de lixo a ser sepultada para servir de caminho para os que lhe seguirão. Parabéns, prima e melhoras

Eulina Costa disse...

Querida filha,confesso que me tocou muito o seu texto,pois, quando li nos jornais aquela triste notícia que aconteceu no lixão,não contive as lágrimas e que muito me impressionou...,agora, com o seu artigo muito bem elaborado e comovente,tenho certeza que, quem o leu não ficou indiferente as emoçoes e reflexões.É chocante o que temos lido e visto pela tv nos noticiários, os trágicos e incríveis acontecimentos com o ser humano em diversas situações.Deus nos acuda!!!Beijos da mamãe.

Ginha disse...

Querida Elaine,
Espero que esteja recuperada...
vc surpreende a cada texto que disponibiliza para nossas reflexões!
Bjos
Ginha

Thales Prestrêlo disse...

Excelente texto, Elaine!

Bruno Lamenha disse...

Vivemos tempos loucos em que a reificação do próprios humanos atingiu proporções inimagináveis. O Outro se tornou, definitivamente, uma mercadoria pronta a ser consumida e, quando sem uso, descartada.

É inevitável não temer o amanhã.. =(

Elaine Pimentel disse...

Queridos,

Agradeço os comentários de todos vocês. Essa dura realidade, realmente, sensibiliza muitos de nós, mas parece ser indiferente a quem tem o poder de tomar providências. As crianças continuam no lixão de Maceió...

Abraços,

Elaine